Neste artigo falaremos dos conceitos de modo ser, da "musculação do olhar" e do mindfulness na fotografia contemplativa.

Não buscamos a beleza nas coisas simples para fazer boas fotos, mas para treinar nossa percepção para ver a beleza mais vezes, e assim ter mais qualidade de vida.   Fotografia Contemplativa Santiago de Chile, 2016 Por @yuribittar   #fotocontemplativaBR #f
Foto: Yuri Bittar, Santiago, Chile, 2016

Musculação do olhar

A prática da fotografia é um exercício que pode expandir nosso olhar, da mesma forma como fazer musculação aumenta os músculos. Usaremos neste artigo alguns conceitos de Mindfulness para explicar melhor esta “musculação do olhar”.

Mindfulness foi definido por Jon Kabat-Zinn como “Simplesmente parar e estar presente, isso  é tudo.” Podemos dizer ainda que Mindfulness é um estado mental aberto, curioso e não julgador (Demarzo, Campayo, 2015). E esta é a mesma ideia da fotografia contemplativa (Karr, Wood, 2011), um modo de ver sem julgar, amplo e curioso. Você pode ler mais sobre Mindfulness em http://www.mindfulnessbrasil.com/ .

Para podermos usar a fotografia para exercitar nosso olhar devemos entender, primeiramente, que temos dois tipos de olhar, ou seja, dois modos de ver, o modo FAZER e o modo SER. O exercício só vai acontecer no modo ser, e a fotografia contemplativa é favorável a isso. 

Modo fazer

Costumamos tentar ver o que queremos ver, buscamos encaixar a realidade no que procuramos, e esse é o nosso modo automático, o MODO FAZER, muito mais ligado aos nossos anseios, vontades, necessidades e expectativas, do que à realidade, não é apenas como fotografamos, mas como olhamos para o mundo.

Claro que o modo fazer não é errado, e  em muitos momentos da vida precisamos dele, mas “[...] viver sob o comando do piloto automático não permite à pessoa lidar de maneira flexível com os eventos do momento. Confiar no piloto automático promove modos rígidos e altamente limitados de reagir ao ambiente.” (VANDENBERGHE e SOUSA, 2006) 

Modo ser

Já o MODO SER é quando nos permitimos experimentar o mundo, estarmos abertos à experiência, sem querer ou esperar algo específico, sem pensar ou julgar, aceitando e não rejeitando a realidade, tendo uma atitude sempre amável, possuir mente de principiante (ou seja, ver tudo como se fosse a primeira vez) e paciência (ser gentil até consigo mesmo). Se olharmos desse modo vamos ver as coisas pelo que elas são, não pelo que queremos que sejam, assim podemos começar a exercitar nosso olhar de fato.

Podemos ainda dizer que o MODO SER nos leva a VER, enquanto o MODO FAZER nos leva a IMAGINAR. Não há problema em imaginar, e em muitos momentos da vida é o que precisamos. Mas para exercitar o olhar, obviamente, precisamos ver.  

Ser é ver

Fotografia Contemplativa São Paulo, 2016 Santo Amaro, minha terra  Não tenho postado muito sobre Fotografia Contemplativa por aqui pois tenho outro perfil dedicado a isso, o @fotocontemplativa (no Instagram) Então me siga lá também pois coloco fotos e dic
Foto: Yuri Bittar, São Paulo, 2016

Assim, para podermos fazer a “musculação do olhar” precisamos estar no modo ser. A proposta da fotografia contemplativa é exatamente essa, ver o que há para ver, manter a mente mindfulness, no modo ser, clara e aberta. Para começar a introduzir a prática da fotografia contemplativa e do modo ser em nossas vidas devemos encarar com tranquilidade as dificuldades como a falta de tempo e dificuldade em se concentrar, sendo gentis com nós mesmos.

Nossa mente, sempre trabalhando, realizando o “diálogo interno”, sem distanciamento dos pensamentos, aos quais nos identificamos, cria uma cadeia de pensamentos interminável e causadora de sofrimento. O mindfulness busca o pensamento consciente, que não nos prende sentimentalmente pois somos capazes de nos distanciar e não cair numa cascata de pensamentos ruminativos. Essa mesma cascata é o que nos impede de realmente ver, usar a percepção, pois a mente começa a divagar por conceitos (Karr, Wood, 2011). O modo ser nos ajuda a não divagar e continuar apenas vendo.

Nas práticas de mindfulness normalmente temos uma âncora, para focar o pensamento conscientemente em algo. Essa âncora na fotografia contemplativa é a percepção. Caso a âncora seja perdida devemos gentilmente retornar a ela. Dar-se conta da perda da âncora não é perder o Mindfulness, pelo contrário, devemos tomar consciência do que ocorreu, e esse é o momento mais importante da meditação. Devemos manter a aceitação.

A luz é sempre nova e encantadora, e as sombras formam desenhos incríveis e sempre originais. Encante-se.  São Paulo, 2016 Por @yuribittar  #fotocontemplativaBR #fotografiacontemplativa #fotocontemplativa #contemplativephotography #meditacao #mindfulness 
Foto: Yuri Bittar, São Paulo, 2016

Concluindo, por hora...

A Fotografia Contemplativa parece encontrar um bom lugar nesse objetivo de nos trazer para o modo ser, e o Mindfulness como estilo de vida.

O modo FAZER é o mais comum na fotografia em geral e motivo de muita frustração de pessoas que praticam a fotografia como lazer ou arte, e que sofrem por não conseguir FAZER, e deixam de SER, de praticar por praticar, apreciar o mundo e viver a experiência do momento. Só podemos exercitar e ampliar o olhar vendo de verdade, observando o que nos cerca, abertos à experiência, e não buscando ver o que procurarmos. Sair do modo automático, ter curiosidade e mente de principiante, pode nos tirar das soluções conhecidas e encontrar novas .

Fotografar no MODO SER nos permite ver cada vez mais, encontrar novas experiências, ter menos frustrações e uma maior compreensão da experiência cotidiana.

Nossa pesquisa em andamento “O Laboratório do Olhar” irá explorar mais a fundo essa temática, e este artigo é apenas uma exploração inicial. Você pode ler mais sobre o tema em nosso Site: http://www.fotografiacontemplativa.com.br .

Referências:

KARR, Andy e WOOD, Michael. The Practice of Contemplative Photography: Seeing the World with Fresh Eyes. Shambhala Publications, Boston, 2011. 

Marcelo Demarzo & Javier García-Campayo. Manual Prático: Mindfulness – Curiosidade e Aceitação. Editora Palas Athena (2015).

VANDENBERGHE, Luc; SOUSA, Ana Carolina Aquino de. Mindfulness nas terapias cognitivas e comportamentais. Rev. bras.ter. cogn.,  Rio de Janeiro ,  v. 2, n. 1, p. 35-44, jun.  2006 .   Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1808-56872006000100004&lng=pt&nrm=iso>. acessos em  05  set.  2016.