Fotografia Contemplativa, Inovação e Criatividade
por Yuri Bittar

RESUMO

Vivemos um tempo de correria e agilidade, pressa e estresse, onde se exige a criatividade e inovação, mas ao mesmo tempo parece haver cada vez menos espaço para isso. Neste artigo propomos o uso da Fotografia Contemplativa, uma prática Mindfulness, como plataforma para incentivo do desenvolvimento pessoal e a partir disso da capacidade criativa e inovacional.

O Bom Olho 

Summary:

We live in a time of rush and agility, hurry and stress, which requires creativity and innovation, but at the same time there seems to be less and less space for it. In this paper we propose the use of Contemplative Photography, a Mindfulness practice, as a platform to encourage the personal development and from this, a creative and inovacional capacity.

Introdução

Em face do impressionante processo de globalização e competição acirrada que caracteriza o mundo atual, seja no ramo corporativo ou administração pública, ensino, ciência, etc., instituições e pessoas sofrem uma enorme pressão para se manter em um processo permanente de inovação. Como a origem da inovação reside nas ideias criativas dos indivíduos, a criatividade tem recebido uma atenção crescente. Ela tem sido apontada como uma habilidade humana crítica, que deve ser canalizada e fortalecida a favor do sucesso da organização. (Alencar, 1998). Acreditamos que o Bom Olho é um ótimo caminho para a criatividade, inovação, aumento de qualidade de vida e solução de demandas. 

Duas formas de ver

Criatividade é a capacidade de criar. Para criar, é preciso ver mais, pois só assim é possível encontrar novos caminhos ou novas soluções. Há duas formas de ver, conceitualmente e perceptualmente (Karr e Wood, 2011, p.35):

  • A forma conceitual é a que usamos normalmente, é a mente pensante, ansiosa, que busca por definições e soluções, sentidos e julgamentos, usando nossos conceitos, comparando com o que já sabemos. Um exemplo é o semáforo vermelho, ou as placas de trânsito, pois normalmente vemos apenas seu significado, mas não notamos suas formas, brilhos ou texturas.

  • Mas a visão da percepção é quase o oposto, é ver sem esses pré-julgamentos, sem procurar algo específico, apenas percebendo a imagem, a forma, cor, textura, luz. Com esse tipo de visão não vemos o semáforo vermelho como “pare”, mas sim como luz vermelha, em uma caixa de metal preta, suspensa num poste… É justamente esta forma que queremos trabalhar, é o Bom Olho, um olhar mais claro e de pura percepção. 

A criatividade na busca de soluções e inovações é um fator de extrema importância hoje, seja no mundo corporativo, acadêmico e até pessoal. Encontrar essa criatividade exige da pessoa uma busca por novos caminhos, inovação, ousadia e paixão. (Oliveira, 2010). 

Para ver novos caminhos, precisamos ver mais claro, e a Fotografia Contemplativa, o Bom Olho, tem justamente o objetivo de tornar nossa visão mais clara, nos fazer notar o que está ali e não pudemos ver ainda. Ver o mundo ao nosso redor com mais curiosidade e paixão, apreciar e perceber, podem definir a fotografia contemplativa, mas também uma busca por algo novo. 

Quero mostrar como através dos conceitos de arte, simplicidade, experiência e do “bom olho” podemos criar um caminho de incentivo à criatividade e à inovação. 

A Fotografia Contemplativa

É ver e fotografar com o Bom Olho, com a percepção, de forma clara.

A Fotografia Contemplativa pode ser entendida como um estado mental aberto, curioso, sem julgamento, concentrado em apenas ver. Antes de uma técnica de fotografia é uma forma de ver o mundo e de viver. É a experiência visual direta, não conceitual, ou seja, a pura percepção. É uma prática ligada à meditação que, buscando ver a realidade sem pré-conceitos, fórmulas, definições, ansiedades, objetivos, apenas ver, visa trazer nossa visão para o presente, para o dia-a-dia, para o real, abrindo nossos olhos e permitindo ver o “novo” no cotidiano, ver beleza e criar arte. A proposta é trazer a arte para a vida cotidiana, e a vida cotidiana para a arte, entendendo que as boas imagens não estão no raro e no inusitado, ou no diferente, mas em tudo. Mas nossos olhos da razão (olhar conceitual) não enxergam isso. Os do coração, da percepção, dos sentidos, sim! 

Acredito que a verdadeira arte é perceber a beleza e as sutilezas do "não fabricado", do que está ao nosso redor. Assim o mundo do artista é interminável. A Fotografia Contemplativa é sobre isso, sobre ver.   Leia mais em www.fotografiacontemplativa.com.b

Mindfulness 

Encontradas em diversas tradições culturais e filosóficas, o conceito e as práticas de Mindfulness (“Atenção Plena”) têm sido cada vez mais integradas na prática clínica contemporânea, principalmente na psicologia e medicina. Mindfulness pode ser entendido como um estado mental baseado na experiência direta do momento presente, com consciência plena, e atitude aberta e não-julgadora a cada instante. O estado mental de mindfulness é uma alternativa a um estado mental bastante habitual nos dias de hoje, baseado na desatenção (“piloto automático”) e na reatividade excessiva em situações do cotidiano. (Demarzo e García-Campayo, 2015)

Para se “experimentar” e vivenciar o momento presente podem ser utilizadas as práticas ou exercícios de mindfulness, baseadas no treinamento da atenção plena por meio de algumas “âncoras” para a observação consciente, como a própria respiração, ou as sensações e movimentos corporais.

Podemos entender a Fotografia Contemplativa como uma prática Mindfulness, pois compartilha de todos os conceitos básicos, como atitude curiosa, aberta, não julgadora e, acima de tudo, sair do “piloto automático”. Dessa forma a prática da meditação Mindfulness pode contribuir muito para a Fotografia Contemplativa pois já conta com amplo referencial teórico e prático, exercícios e grupos de pesquisa.

Ambas as práticas também mostram que precisamos ir mais devagar, aproveitar bem o que está ao nosso alcance, sem ter pressa de aproveitar tudo. As pausas são parte da vida, e temos feito cada vez menos pausas. A experiência como conhecimento decorre dessa pausa.

Arte

Para nós, arte é expressar a beleza do mundo no que fazemos. Ao contrário do que muitos pensam, acreditamos que a verdadeira arte não está no raro e inusitado, mas sim no comum, e a função do artista é trazer a arte para o dia a dia, e o dia a dia para a arte. Devemos lembrar que isso não se aplica apenas a uma arte “de galeria”, mas a usar essa forma de ver o mundo no nosso cotidiano. 

“This ordinary, workaday world is rich an good.” (Karr e Wood, 2011)

Aprender a apreciar o cotidiano, viver a vida diária de forma artística, nos leva a ter uma rotina prazerosa e instigante. A vida com arte é mais gostosa, estimulante e criativa, leva a querer mais, numa direção positiva.

“Uma organização criativa precisa ter capacidade de adaptação, autonomia, flexibilidade, respeitar a dignidade e o valor das pessoas, intensificar a atividade de treinamento e aperfeiçoamento de seu pessoal, realizar uma administração orientada para o futuro, saber lidar com a diversidade, incorporar criativamente novos procedimentos, políticas e experiências e valorizar as ideias inovadoras.“ (Oliveira, 2010).

Simplicidade e experiência

Duas características nos dão ferramentas para ver o mundo de forma criativa: simplicidade e experiência. 

Hoje em dia temos a vida muito complexa, temos muito para fazer, e não conseguimos mais ter espaço, experiências, isso nos estressa muito. A simplicidade é um “remédio” para isso. Faça uma coisa de cada vez. Além disso se sempre pudermos apenas ver a realidade como algo complexo, só buscaremos soluções complexas para nossos problemas. As soluções mais simples só podem surgir nos momentos que vemos a realidade com certa simplicidade. 

Por outro lado, é a experiência que nos dá a flexibilidade, a capacidade de imaginar consequências e a tranquilidade diante de problemas. Mas para acontecer a experiência exige certa paciência, certa atenção, e a Fotografia Contemplativa é muito eficaz para esse momento, pois traz a observação calma e atenta. Para Bondia (2002, p.24):

[...] a possibilidade de que algo nos aconteça ou nos toque, requer um gesto de interrupção, um gesto que é quase impossível nos tempos que correm: requer parar para pensar, parar para olhar, parar para escutar, pensar mais devagar, olhar mais devagar, e escutar mais devagar, parar para sentir, sentir mais devagar, demorar-se nos detalhes, suspender a opinião, suspender o juízo, suspender a vontade, suspender o automatismo da ação, cultivar a atenção e a delicadeza, abrir os olhos e os ouvidos, falar sobre o que nos acontece, aprender a lentidão, calar muito, ter paciência e dar-se tempo e espaço.

Portanto é preciso, nem que seja em apenas alguns momentos, dar tempo ao tempo, deixar a vida acontecer, ter uma experiência. Sem viver não sabemos como melhorar a vida. Para a lenda da fotografia, Henri Cartier-Bresson:

“É vivendo que nós nos descobrimos; ao mesmo tempo que descobrimos o mundo exterior, ele nos forma, mas nós também podemos agir sobre ele. Deve-se estabelecer um equilíbrio entre estes dois mundos, o interior e o exterior, que num diálogo constante formam apenas um, e é este mundo que precisamos comunicar. ” (Cartier-Bresson, p.29)

Segundo Jon Kabat-Zinn, um dos responsáveis pela “ocidentalização” das práticas de Mindfulness com foco na saúde, “Mindfulness é a simplicidade em si mesmo. Trata-se de parar e estar presente. Isso é tudo”. (Demarzo e García-Campayo, 2015)

Fotografia Contemplativa e Mindfulness buscam a simplicidade, que é uma solução para a complicada vida moderna. Ter atenção aos pequenos passos pode ser mais importante que as “grandes coisas”. O simples nem sempre é fácil, mas é essencial a busca da clareza, do minimalismo, que são formas de sintonia com o mundo, com a vida.

Fotografia Contemplativa São Bernardo do Campo, ABC, SP.  Parque Raphael Lazzuri, onde faremos nossa Oficina de Fotografia Contemplativa em março!   #fotocontemplativaBR #fotografiacontemplativa #contemplativephotography #belezanasimplicidade #simplicidad

O Bom Olho

Vivemos em um mundo de imagens, e o tempo todo nossos olhos navegam um mar visual, mas raramente prestamos atenção ao que vemos. Normalmente nos concentramos em poucas coisas, no centro da visão, de acordo com o que estamos interessados, e deixamos de ver muitas coisas. (Karr e Wood, 2011, p.139)

Mas ao ver apenas o que procuramos deixamos de ver o que não procuramos e não conhecemos, deixamos de ver o novo e o inesperado, justamente onde muitas vezes poderíamos encontrar uma nova solução para o que buscamos. O bom olho é o olho consciente, que enxerga além do centro, além do que se busca, que vê com clareza.

Este conceito, o Bom Olho, é essencial para nossa abordagem de desenvolvimento da criatividade via Fotografia Contemplativa. Acreditamos que é o Bom Olho que nos permite ver mais, estar atento ao novo, encontrar a riqueza no cotidiano, viver de forma melhor e se sentir melhor. 

Criatividade

Criatividade exige QUERER e SER CAPAZ. 

Para o desenvolvimento de inovação, via criatividade, é preciso um ambiente corporativo favorável, mas também pessoas com características que a predisponham, como experiência, capacidade de relacionamento social, confiança, motivação e flexibilidade. Querer fazer, ter prazer, se sentir bem com o trabalho, são fatores essenciais. 

“A criatividade floresce mais quando o indivíduo realiza tarefas mobilizado mais pelo prazer e satisfação do que pela obrigação e dever.” (Alencar, 1998).

Portanto, é necessário que uma plataforma para a criatividade individual esteja presente no ambiente das organizações. Essa plataforma tem como base a presença de sentimentos de confiança e respeito, a harmonia nas equipes, a prática das virtudes de compartilhar ideias, respeitar as diferenças, valorizar o trabalho do indivíduo e do grupo, reconhecer as potencialidades e oferecer oportunidades para a produção e fertilização de ideias.  (Alencar, 1998).

Proposta

O que propomos então, ao final deste artigo, é buscar o desenvolvimento pessoal, de ver a vida com o Bom Olho, um olhar claro, minimalista, sintonizado com a vida, numa vida cotidiana prazerosa e criativa, instigante e relaxada. O Bom Olho também é aquele que compartilha, ensina, aprende, e vê a vida de forma positiva e cheia de novos caminhos.

Como desenvolver e praticar esse novo jeito de ver? É preciso uma base, uma plataforma, que é a Fotografia Contemplativa, e para se desenvolver nesta prática e forma de ver o mundo, pode ser feito a partir de leituras, exercícios e principalmente experiência. Mas acima de tudo é preciso vontade de ser assim, e espaço para ser. 

Publicado em fotografiacontemplativa.com.br em 04 de fevereiro de 2016

Leia mais sobre Fotografia Contemplativa.

Yuri Bittar, por Fabio Uehara

Sobre o autor: Yuri Bittar

Yuri Bittar é designer, fotógrafo e historiador. Atua como designer gráfico, e desenvolve cursos de fotografia, exposições e as saídas Fotocultura, além de pesquisas sobre humanização no ensino da saúde. Através da história oral, da fotografia, da literatura e outros recursos, tem buscado criar projetos mais próximos ao humano e que contribuam para a melhora da qualidade de vida.

Contato: This email address is being protected from spambots. You need JavaScript enabled to view it.

Site: http://www.yuribittar.com

Referências:

● ALENCAR, Eunice M. L. Soriano de. Promovendo um ambiente favorável à criatividade nas organizaçoes. Rev. adm. empres. [online]. 1998, vol.38, n.2, pp. 18-25. ISSN 0034-7590.

● BONDIA, J.L. Notas sobre a experiência e o saber da experiência. Rev. Bras. Educ., n.19, p.20-8, 2002

● Cartier-Bresson, Henri. O Imaginário Segundo a Natureza. Editora GG, São Paulo, 2015.

● Demarzo, Marcelo & García-Campayo, Javier. Manual Prático de Mindfulness: Curiosidade e Aceitação. Editora Palas Athena (2015).

● KARR, Andy e WOOD, Michael. The Practice of Contemplative Photography: Seeing the World with Fresh Eyes. Shambhala Publications, Boston, 2011.

● OLIVEIRA, Zélia Maria Freire de. Fatores influentes no desenvolvimento do potencial criativo. Estudos de Psicologia I Campinas I 27(1) I 83-92 I janeiro - março 2010