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Yuri Bittar

Olhar
[Retratos silenciosos do barulho interior - Yuri Bittar, Lisboa, 2018]

A poética dos movimentos invisíveis, a melodia do silencio ensurdecedor, retratos silenciosos do barulho interior. Sobre como a contradição humana é espaço, presença e vida.

Resumo

Este artigo traça o caminho de uma fotografia de rua, relaciona esta a uma prática contemplativa, ao conceito de percepção, do punctum de Barthes, e busca entender como uma fotografia pode contribuir para a ideia de criar um espaço de presença e vida como apresentado por Ferracini. Na relação entre o “barulho” interior de cada pessoa e o “silêncio” de uma foto, entre o visto e o invisível, existe uma possibilidade de presença, de criação de um espaço de relação entre corpos, de vida. Propomos encarar a fotografia como uma poética dos movimentos invisíveis, uma criação conjunta de diferentes corpos, e oportunidade para, em aula, criar um espaço com potencial de presença e vida.

Um caminho até aqui

O texto (Presença e Vida. Corpos em arte) e o vídeo (Corpo Coletivo: presença radical nos tempos atuais) de Renato Ferracini, ao falarem de teatro, presença e corpo, vieram ao encontro a uma reflexão que já me preocupava, dentro da fotografia. Além disso nestes mesmo dias encontrei em meus arquivos uma foto, de minha autoria, que também contribuiu, ou complicou, essa questão. E a questão é a presença, o que numa foto nos liga a ela, nos leva para dentro dela. E é esta foto que apresento para esta discussão.

Tenho uma série de fotografias em andamento intitulada “Retratos silenciosos do barulho interior”. Nessas fotos tento dar plasticidade a percepção de que apesar de uma aparência por vezes silenciosa, trazemos dentro de nós muito “barulho”. Ou seja, busco retratar como a “casca exterior”, tão bem captada pela fotografia, pode ocultar, e certamente oculta, um ruído, movimento, desencaixe, talvez resultado de uma tentativa de nos adaptar a padrões retilíneos, negando que por dentro somos um redemoinho difuso e impreciso.
Nessa relação entre barulho e silêncio, entre visível e invisível, suspeito haver um movimento poético e possivelmente uma oportunidade de presença.

Corpos em relação: Fotografia como percepção

Antes de falar da foto que trazemos para discutir, precisamos esclarecer que, ao fotografar nas ruas, podemos ter basicamente duas atitudes, dois olhares:

A) Forma conceitual: sair e procurar o que queremos, buscar boas imagens, preocupados com o resultado, com o “like” ou com a venda;

B) Forma perceptual: estar presentes e descobrir o que houver - ou viver o momento, fruindo, conhecendo, registrando, deixando o depois para depois. Resumindo mais, podemos sair para achar o que queremos, ou estar para descobrir o que houver.

A diferença é que essa segunda forma de olhar, muito ligada às práticas contemplativas, pressupõe uma presença, consciência, e permite vivenciar o momento. Talvez esse “mundo” captado pela percepção possa ser essa “grande composição aberta a outras composições” mencionada por Ferracini. Mas voltaremos a isso. Não que não seja possível na forma conceitual, mas é menos provável.

Retratos silenciosos do barulho interior

A foto que trago para pensarmos é de 2018, feita em Lisboa. Nesta viagem trabalhei com outra série, outro tema, que resultou até em um livro (Sombras de Paz e Solidão), mas esse sentimento sobre o “barulho interior”, agora percebo, já estava em mim, pois ao rever as fotos agora percebi os “Retratos silenciosos do barulho interior” em muitas fotos, mas na época não tinha a “chave” para percebê-las.

Esta é uma fotografia noturna, tirada com o celular, há nela a beleza das luzes de neon refletidas no calçamento português, mas o mais especial é olhar da garota:

Olhar
(a mesma foto, percbam o olhar)

São belos olhos grandes e amendoados, e o branco se destaca, esse é o visível na foto. Mas o invisível se apresenta como perguntas: ela estaria pensativa? Preocupada? Admirando a paisagem? Me encantei com esse olhar mas não por sua beleza, mas pela possibilidade de presença que eles suscitam, pela janela que esse olhar abre para imaginarmos o “barulho interior”. Não sabemos que barulho estava dentro dela, mas não duvidamos que existia.

Encontro de presenças e potência da vida

Aqui está a oportunidade de pensar a presença. Ao sair para a rua, para fotografar, com a percepção ativada, sem esperar nada específico, mas abertos à experiência do momento, podemos nos sintonizar ao ritmo da cidade, ouvir sua poesia, e de certa forma refletir, nas fotos feitas, algo do mundo e algo nosso. Podemos nos abrir para uma relação com outros corpos (pessoas, arquitetura...) e permitir a intensidade da vida, compor, com eles, um poema de movimentos silenciosos.

Renato Ferracini diz, sobre vida e presença, que a “ vida é pensada como uma força inventiva composicional e presença é experimentada como uma relação concreta entre corpos que em sua tensão de encontro gera maior ou menor intensidade.” (Ferrancini, 2013, p. 4)

E se ao encarar o registro da vida, na fotografia, como um poema feito em conjunto, saíssemos do papel de fotógrafo-autor para o de co-criadores? Que potência isso gera?
O que propomos é uma atividade para se realizar em grupo, de duas á trinta pessoas, que é simplesmente olhar uma foto, por um tempo relativamente longo, e discuti-la. Isso par aque nesse momento, em grupo, pudéssemos criar presença. Em resposta à pergunta: “como proporcionar espaços de experiências que realizam “efeitos de presença” geradores de maiores graus de intensidade? ” (Ferracini, 2013, p.6).

A fotografia pode proporcionar esse espaço. Os movimentos visíveis, como o passo de alguém, ou o carro ou uma casa, são fáceis de captar. Mas nos movimentos quase invisíveis, sugeridos por detalhes, pelo punctum (Barthes, 1984), o detalhe da foto que nos prende, nos atinge, nos atrai para uma reflexão mais profunda, que para outros pode ser despercebido, mas para quem sentiu essa “cutucada” da foto passa a ser o centro da imagem, nos permitem estar presentes.

Para mim, nessa foto, esse punctum é o olhar da garota, que de certa forma é uma contradição, o diferente, outra pessoa, mas é também o que permite criar um espaço, uma presença, que é imaginada, mas também concreta se fazemos uma pausa para ver e para discutir a foto em grupo.

Conclusão: Uma poética dos movimentos invisíveis como caminho de presença

Um olhar, ou um gesto, ou um detalhe qualquer, enquanto punctum, e completados por nosso próprio olhar, criando poética nos movimentos que só existem no encontro entre corpos, do fotógrafo, do local e pessoas fotografados e de quem vê a foto, gera potência de presença.

No olhar da “rapariga”, meu punctum, surge uma conexão, um encontro poético, um movimento invisível.
Assim uma poética dos movimentos invisíveis, ou retrato silencioso do barulho interior, é como um caminho de presença, uma busca por perceber e “poetizar” juntos, um tentar entender o mundo que pode não ter fim, mas a cada passo constrói algo concreto.

Imagino que especialmente a área da saúde poderia usufruir desse “compartilhamento de experiências poéticas coletivas” (Ferracini, 2013, p.1), um encontro, um movimento invisível, não só para exercitar a própria humanidade, mas para ampliar o olhar para novas formas de visualizar a realidade.

Referências
BARTHES, Roland. A câmara clara: nota sobre a fotografia. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.
Ferracini, Renato. Presença e Vida. Corpos em arte. Anais ABRACE, v. 14, n. 1 (2013) . https://www.publionline.iar.unicamp.br/index.php/abrace/article/view/2761/2894
Ferracini, Renato. Corpo Coletivo: presença radical nos tempos atuais. Vídeo no Canal agenciamentos do Youtube, 2020. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=2VmV20ypTs4

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